Era um garoto em 1964

chicomiranda.wordpress.com Acesso: 01 abr 2019





Há exatos 55 anos, eu estava no primeiro ano escolar. Naquele momento, tudo era novidade para mim, e minha babá foi me buscar inesperadamente, no meio do turno. Nós saímos da escola e caminhamos pela avenida, de volta para casa, uma boa caminhada.  Naquela manhã de primeiro de abril de 1964, eu percebia algo diferente acontecendo, soldados fardados de verde oliva com fuzil e capacete de metal arredondado, perfilados por toda extensão do percurso, e ruídos de helicópteros do Exército que sobrevoavam a Liberdade, onde morávamos. À época, um bairro de classe média de economia própria e pujante, o mais autônomo daquela Salvador dos anos 1960.

Aconteceu alguma coisa de grave no país e a recomendação das autoridades era a suspensão das aulas. Eu estava achando aquilo muito fascinante, no alto da inocência dos meus cinco anos de idade. Parecia que havíamos entrado em uma cena de filme de guerra que assistíamos pela TV Itapuã, a única estação da Bahia, em meio a novelas como "Direito de Nascer" e "As pupilas do senhor Reitor", uma choramingueira mexicana sem dó, feita por novelistas cubanos. As rádios
, contudo, falavam de um "conjunto" - era assim que se chamava uma "banda" naquele tempo - de Liverpool, na Inglaterra, uma tal de "Dê Bítos" que estava fazendo um grande sucesso. Eles cantavam melodias alegres aos gritos.

O presidente dos Estados Unidos, John Kennedy, que tinha morrido assassinado no ano anterior, tinha uma esposa muito bonita e elegante e em homenagem a ela tínhamos uma gatinha que se chamava Jaqueline e que custou a morrer. Uma vez, ela caiu do terceiro andar onde morávamos e saiu andando como se nada tivesse acontecido. Eu cortava o cabelo com máquina zero pressionando meu couro cabeludo e doía muito. É para me deixar com um corte militar combinado com um topete na frente. Estava na moda. Tudo porque há pouco tempo Elves Presley tinha saído de licença da carreira para cumprir o serviço militar e teve que adaptar a cabeleira. Éramos, portanto, uns "elvesinhos".

Voltando à minha fantasia cinematográfica, eu estava feliz porque o Brasil estava em "guerra". Estava orgulhoso de nossos soldados. O tempo passou e cresci. Hoje sabemos que a guerra era outra e a vencemos. Estou com 60 anos, mas a minha admiração por aqueles pracinhas continua intacta e mais do que nunca consciente do cuidado deles, a partir daquele dia longínquo de nossa história recente, com o fim de restaurar nossas instituições. Os soldados de verde oliva, com Deus e pela Família, nos livraram de uma ditadura - comunista - muito cruel em todos os sentidos políticos e econômicos. Sim, temos muito o que comemorar e valorizar pela liberdade que hoje desfrutamos. Mas devemos olhar para o futuro, tendo aprendido as lições do passado, sem perder a noção de democracia e liberdade, e não medir força com os totalitaristas de esquerda para provar que somos piores do que eles.

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