Eu homofóbico

bbc.com Acesso: 12 out 2018


Em conhecia um rapaz que se chamava ‘Ivo’ *, de uma família amiga, seu pai era colega do meu. Éramos crianças, mais ou menos da mesma idade. Desde cedo, porém, Ivo preferia brincar de boneca com as meninas e não cheguei a desenvolver amizade com ele.

Uma ocasião, fui com a turma do programa de calouros em que eu participava   ensaiar, em um espaço artístico/esportivo conhecido na cidade. Pois bem, estávamos desenvolvendo uma atividade na quadra quando, de repente, eu avistei Ivo na arquibancada vazia, solitário - ele morava na vizinhança - nos observando com a cara de poucos amigos com que eu sempre achei que ele tivesse. Contudo, subi os degraus para cumprimentá-lo. Ele não me deu muita bola, então voltei para a quadra com a consciência tranquila de quem havia proposto a paz, mesmo que nunca tivéssemos vivido próximos o bastante para brigar.

Em outra ocasião, eu avistei Ivo fazendo a abertura de um desfile cívico, se requebrando ao estilo de Ney Matogrosso, líder da banda Secos & Molhados, que fazia grande sucesso à época. Por outro lado, uma vez eu estava caminhando pela calçada do Colégio Edson Ribeiro e ouvi alguém assoviando para mim de maneira insistentemente. Quando olhei para trás, um sujeito que conhecia só de vista – ele já adulto e eu um menor de 15 ou 16 anos - me disse: ' sabe que você é bonito? ' . Eu agradeci, surpreso, e segui o meu caminho sem dizer mais nada.


Essas três histórias que acabei de relatar aconteceram na minha adolescência, com disse, e em Juazeiro (onde nasceram João Gilberto, Ivete Sangalo e meu irmão mais velho). Era meados dos anos 1970, apogeu da famigerada Ditadura Militar. Transportando-nos trinta anos no tempo, minha mãe e eu estávamos visitando Juazeiro e fomos visitar uma amiga dela, dona Ivaneide* - mãe daquele rapaz que amava Ney Matogrosso e os Secos & Molhados de maneira mais festiva que os demais jovens, lembra?

Pois bem, desde o tempo de adolescência, Ivo já fazia questão de ser chamado de Ivana. Quando fomos recebidos por dona Ivaneide, na sala de estar de sua casa, Ivo estava entretido nos trabalhos da casa. Era o filho que mais ajudava a mãe. Ela o chamou mais de uma vez para vir nos cumprimentar e ele não veio. Então, eu pensei: deve ser por que nós agora somos evangélicos, está desconfiado. Porém, eu me coloquei no lugar de Jesus Cristo, naquela situação, tomei coragem e fui até ele, sem dizer muita coisa, e lhe dei um forte abraço, por mais fria que estivesse sendo a recepção dele para comigo.


Voltamos para Salvador e pouco tempo depois ficamos sabendo que Ivo saiu com dois rapazes desconhecidos, sumiu, e a Polícia o encontrou morto depois, assassinado com requintes de crueldade. Isso aconteceu em Juazeiro, reduto eleitoral do PCdoB na atualidade, em pleno apogeu do governo petista de Lula. 

Como se vê, a homofobia não tem nada a ver com o tipo de regime político que já existiu na história de nosso país. Até porque, graças a Deus, nunca houve uma ditadura comunista por aqui. Essa sim é que persegue homossexuais. Todavia, hoje sou contado preconceituosamente como homofóbico , por ser eleitor de Jair Bolsonaro - político conservador de direita - por aqueles que, ou são canalhas, ou sofreram lavagem cerebral nas escolas. 

Conheço minha história, por isso sei exatamente quem sou e não ligo se alguém me disser que eu sou homofóbico ou torturador em potencial. A verdade é meu escudo e não a hipocrisia. Por isso vou de Bolsonaro, sim, e recomendo.

( * ) Os nomes foram trocados para preservar a privacidade da família dos envolvidos, amiga de nossa família há mais de 50 anos.

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