Era um garoto em 1964/ I Was a Boy in 1964

 

chicomiranda.wordpress.com Acesso: 01 abr 2019


Há exatos 62 anos, eu estava no primeiro ano escolar. Naquele momento, tudo era novidade para mim, e minha babá foi me buscar inesperadamente, no meio do turno. Nós saímos da escola e seguimos 
pela avenida, de volta para casa, como estávamos acostumados.  

Naquela manhã de 31 de março 1964, eu percebia algo diferente acontecendo, soldados fardados de verde oliva com fuzil e capacete de metal arredondado, perfilados por toda extensão do percurso, e ruídos de helicópteros do Exército que sobrevoavam a Liberdade, onde morávamos. À época, um bairro de classe média de economia própria e pujante, o mais autônomo daquela Salvador dos anos 1960.

Na imagem emblemática acima, não era o povo que protestava, mas uma pequena multidão de jovens comunistas, enquanto soldados se esforçavam para manter a ordem nas ruas das principais cidades do país, naqueles dias conturbados para a extrema-esquerda golpista.

Parecia estar acontecendo algo de grave no país e a recomendação das autoridades era a suspensão das aulas. Eu estava achando aquilo muito fascinante, no alto da inocência dos meus cinco anos de idade. Parecia que havíamos entrado em uma cena de filme de guerra que assistíamos pela TV Itapuã, a única estação da Bahia, em meio a novelas como "Direito de Nascer" e "As pupilas do senhor Reitor", uma choramingueira mexicana sem dó, feita por novelistas cubanos. 

As rádios, contudo, falavam de um "conjunto" - era assim que se chamava uma banda naquele tempo - de Liverpool, na Inglaterra, uma tal de "Dê Bítos" que estava fazendo um grande sucesso. Eles cantavam melodias alegres aos gritos.

O presidente dos Estados Unidos, John Kennedy, que tinha morrido assassinado no ano anterior, tinha uma esposa muito bonita e elegante e em homenagem a ela tínhamos uma gatinha que se chamava Jaqueline e que custou a morrer. Uma vez, ela caiu do terceiro andar onde morávamos e saiu andando como se nada tivesse acontecido. 

Eu cortava o cabelo com máquina zero pressionando meu couro cabeludo e doía muito. É para me deixar com um corte militar combinado com um topete na frente. Estava na moda. Tudo porque há pouco tempo Elves Presley tinha saído de licença da carreira para cumprir o serviço militar e teve que adaptar a cabeleira. Éramos, portanto, uns "elvesinhos".

Voltando à minha fantasia cinematográfica, eu estava feliz porque o Brasil estava em "guerra", e orgulhoso de nossos soldados. O tempo passou e cresci. Hoje sabemos que a guerra era outra e a vencemos. Estou com 67 anos, mas a minha admiração por aqueles pracinhas continua intacta e mais do que nunca consciente do cuidado deles, a partir daquele dia longínquo de nossa história recente, com o fim de restaurar nossas instituições. 

Os soldados de verde oliva, com Deus e pela Família, nos livraram de uma ditadura - comunista - muito cruel em todos os sentidos políticos e econômicos. Sim, temos muito o que comemorar e valorizar pela liberdade que hoje desfrutamos. Mas devemos olhar para o futuro, tendo aprendido as lições do passado, sem perder a noção de democracia e liberdade, e não medir força com os totalitaristas de esquerda para provar que somos piores do que eles.



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I Was a Boy in 1964 
(March 31, 2026) 


Exactly 62 years ago, I was in my first year of school. At that time, everything was new to me, and my nanny unexpectedly picked me up in the middle of the school day. We left school and walked down the avenue, back home, a good walk. On that morning of March 31, 1964, I noticed something different happening: soldiers in olive green uniforms with rifles and rounded metal helmets, lined up along the entire length of the route, and the sounds of Army helicopters flying over Liberdade, where we lived. At the time, it was a middle-class neighborhood with its own thriving economy, the most autonomous in Salvador in the 1960s. 

Something serious had happened in the country, and the authorities recommended the suspension of classes. I found it all very fascinating, in the innocence of my five years of age. It seemed like we had stepped into a scene from a war movie we watched on TV Itapuã, the only station in Bahia, amidst soap operas like "Direito de Nascer" and "As pupilas do senhor Reitor," a merciless Mexican soap opera written by Cuban novelists. The radio stations, however, talked about a "group"—that's what a band was called back then—from Liverpool, England, a group called "Dê Bítos" that was having great success. They sang cheerful melodies at the top of their lungs. 

The President of the United States, John Kennedy, who had been assassinated the previous year, had a very beautiful and elegant wife, and in her honor we had a kitten named Jacqueline who took a long time to die. Once, she fell from the third floor of our apartment and walked away as if nothing had happened. I used to get my hair cut with a zero-grade clipper, pressing on my scalp, and it hurt a lot. It was to give me a military haircut combined with a quiff in the front. It was all the rage. This was because Elvis Presley had recently taken a leave of absence from his career to fulfill his military service and had to adapt his hairstyle. We were, therefore, a bunch of "little Elvises".

Returning to my cinematic fantasy, I was happy because Brazil was at "war." I was proud of our soldiers. Time passed and I grew up. Today we know that the war was different and we won it. I am 67 years old, but my admiration for those soldiers remains intact and more than ever aware of their dedication, from that distant day in our recent history, to restoring our institutions. The soldiers in olive green, with God and for the Family, freed us from a dictatorship – communist – that was very cruel in every political and economic sense. Yes, we have much to celebrate and value for the freedom we enjoy today. But we must look to the future, having learned the lessons of the past, without losing sight of democracy and freedom, and not measure our strength against left-wing totalitarians to prove that we are worse than them.



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